Como na maioria dos antigos contos de fadas esta história começa numa terra distante. Lá viviam pessoas estranhas. Tão esquisitas que andavam em fila numa velocidade media de 2,3 km/h para não haver nenhuma colisão que pudesse afetar o tornozelo e adjacentes.
Dirigir só a menos de 35 km/h. Principalmente depois que um andarilho contou sobre um chocante documentário sobre os perigos da direção. É claro que essas pessoas também pagavam seus impostos (taxas altas) fielmente na sexta-feira, para não haver o problema de alguém ter dinheiro suficiente para criar "baderna" no final de semana.
Falar o que pensa? Nem pensar. Certa vez, um protestou. Escreveu no quadro negro de sua sala de aula: "Somos jovens, jovens, jovens. Somos do exercito, do exercito do Surf". O cara sofreu severas punições.
Neste mundo certinho existia uma garota chamada Joana Jeti. Ela seguia todas as regras, como todos os outros. Levantava cedo, arrumava a cama, tomava café da manhã, pegava o ônibus escolar, assistia as aulas do período da manhã, almoçava, assistia as do período da tarde, pegava o ônibus escolar, voltava pra casa, tomava banho, penteava o cabelo para o lado, ia pra igreja com a família, rezava, rezava, rezava e rezava, voltava para casa, assistia ao programa Xaveco - uma espécie de Malhação, mas muito mais conservador, tomava leite quente e finalmente ia dormir, geralmente por volta das 21h30. Essa era sua rotina diária. Todos os dias a mesma coisa.
Uma vez por mês toda família de Joana saia para comprar roupas. Para irmãozinho sempre camisas de seda, da cor azul bebê. A mãe era fã de um belo avental. O pai só nas gravatas. E Joana nunca se viu sem um vestido rodado rosa. Mas, desta vez foi diferente.
Joana avistou um artefato impróprio: uma jaqueta de couro. Ela se apaixonou à primeira vista. Implorou por horas, até que o pai e mãe cederam:
- Pode dar meu bem. Ela nunca vai usar essa tralha mesmo. Vai morrer de vergonha ao sair na rua vestida com isso! - praguejou a megera da mãe.
Por alguns dias aquela jaqueta ficou pendurada no quarto de Joana. E sua vida seguia da mesma forma. Da mesma forma. Da mesma forma. Da mesma forma.
Até que um dia...
Ela resolveu detonar a porra do sistema!!! Jogou o vestidinho fora, soltou e cortou os cabelos, pintou as unhas de preto, colocou colares, pintou o rosto e colocou a jaqueta de couro. Saiu enlouquecida pela cidade no carro do pai e entrou numa loja de instrumentos. Comprou um amplificador, uma guitarra e um microfone. E saiu a gritar (este é o momento que você, leitor, coloca o volume no talo e pira o cabeção):
Ela nunca mais foi Joana Jeti. Passou a assinar Joan Jett! E a terra distante também nunca mais foi a mesma.
O Fim.

Nenhum comentário:
Postar um comentário